Ônibus

Boa noite, senhores passageiros.

Desculpa atrapalhar a viagem de vocês.

Se não fosse Jesus, abençoados, eu tava era morto.

Subi mancando, todo mundo pôde ver.

Jesus me deu 7 livramentos. Só aprendi depois do sétimo.

Que a vida não é essa coisa de doido.

Eu assaltava.

Casa lotérica, banco matriz.

Mercado, supermercado.

A senhora sabe aquela loteria que tem atrás da Riachuelo?

Eu mais dois parceiros deu uma botada lá.

Rendeu os seguranças. Todos algemados.

Os chegados foram na frente, eu fiquei atrás.

Fizemos a abordagem e eles saíram primeiro.

Cada um com cinco mil.

Não sei de onde saiu aquele outro segurança.

Tavam todos algemados.

A arma apontada pra mim.

Tremi na base, sozinho.

Ele com uma 765.

Mas foi Jesus, abençoados, foi Jesus.

Ele atirou.

Um tiro aqui na barriga.

Apertou pra descarregar.

O resto pinou.

Revidei.

E eu matei esse segurança.

Agora eu digo, abençoados.

Caiu eu prum lado ele pro outro.

Deu em tudo que é jornal.

Eu digo a vocês, foi Jesus.

Fiquei pra morrer no hospital.

E só quem é bandido sabe.

Um médico disse: deixa ele morrer.

Outro médico disse: menos um nesse mundo.

Só quem é bandido passa por isso.

Veio outros e outros.

Só um, abençoados, teve seu coração tocado.

E disse: eu cuido desse rapaz.

Porque esse médico tinha Jesus no coração.

Então meu coração também foi tocado.

E aceitei Jesus na minha vida.

Desde então eu prefiro pedir.

A roubar o que é dos outros.

A atirar nos outros.

Porque Jesus ama todas as pessoas igual.

E eu to aqui, desde de manhã.

Já é nove horas da noite.

Subindo de coletivo em coletivo.

E eu digo, abençoados.

Meu sustento é somente esse.

Porque trabalho ninguém me dá.

Por causa do homicídio.

Aí eu digo a vocês.

Eu posso sair daqui só com um pouquinho de dinheiro.

Ou posso sair com um dinheiro que dê preu me alimentar.

E os abençoados não precisam ficar com medo.

Porque Jesus ta olhando por todos nós.

E que se eu puxar esse gatilho.

As balas vão pinar.

Não levem isso como assalto.

Porque assalto eu não faço mais.

Isso é só o meu sustento.

Ninguém vai sair machucado.

Porque Jesus ama todas as pessoas igual.

Mais um filho da puta

Eu que não tenho amigos no mundo, sou só um filho da puta, mas quando eu tava no hospital, no meio do corredor do HR, adivinha quem aparece?, Lucas, o Chapinha. E sem interesse nenhum, na camaradagem mesmo. Ele disse, tudo bem aí, movéi, eu respondi, tudo bem, estava acordado mesmo, só essa sonda que ta me fodendo, é foda ter que esvaziar a urina toda vez, é uma vergonha do carai.

Ele ficou com pena, eu vi isso no jeito dele falar comigo, mas, quer saber, até eu tava com pena de mim.

E a conversa seguiu por um tempo, até a gente falar do Sport, que ta fodido, e ficamos falando de futebol até ele tocar no assunto, quem foi o filho da puta que fez isso contigo?

Não sei, respondi.

Eu sei.

É?

Esse puto merece se arrombar.

Então eu fiquei olhando pra ele, sem saber onde enfiar a cara, eu tava com muita raiva do cara que me deu essas facadas, e, na moral, eu queria que ele tomasse no cu mesmo.

Olha, disse o Chapinha, eu vou embora. Foi bom falar contigo.

Vá lá.

Toma aí meu telefone, quando tiver alta me liga.

Então.

E foi assim. Dias passaram, eu inchado, facada na barriga, no braço, no peito, minha vida era sopinha, enfermeira, maca, gaze, mijo, ah doutora, tem nada pra fazer, ah doutora, eu quero sair, porra doutora. E dormir, puta que pariu, nunca dormi tanto.

Um dia assim, minha irmã aparece no hospital. Gente pra carai no corredor. Nunca tinha visto ela daquele jeito, a puta, não tinha vindo um dia sequer me ver. Eu não disse nada, a gente ficou só se encarando, cada um querendo falar qualquer coisa, mas com vergonha um do outro. E ela tava com uma cara estranha. Situação chata da porra.

Então eu notei, a cara dela era raiva, véi, raiva de verdade, e eu digo, oi Dalvinha, então ela começa a chorar feito doida.

Eu de novo sem saber o que dizer.

Ela se sentou no chão, a mão na cara, eu não sabia de nada.

Ela se levanta e diz, seu filho da puta, foi seu amigo.

Como é?

Mataram o Rafael! Meu marido, mataram! Foi seu amigo quem mandou matar!

Ficou gritando, o resto do povo no corredor mandando ela calar a boca. Então chegaram dois vigias, eu fiquei dizendo que não, mas eles acabaram botando ela pra fora.

Mais cinco dias eu tava fora do hospital. Finalmente, né situação pra ninguém não. O foda é ter que carregar a bolsinha de mijo pra todo canto, sem ter onde dormir na rua, sem ter pra quem recorrer.

Liguei pro Chapinha assim que saí, mas o número que ele tinha me dado era errado. Sei lá que porra deu nele pra me dar um número errado. Fiquei vagando por aí, a bolsa de mijo de lado, na rua qual bexiga do mundo cicatriza?

Mas fiquei bom, graças a Deus, e voltei pro meu bairro. Alívio quando a doutora tirou os dois cateter.

Depois que eu soube de tudo, a história toda, foi um menor que pipocou o marido da Dalvinha, o viado que me esfaqueou quinze vezes. Eu fiquei feliz, velho. Sei que não foi nenhum amigo meu quem matou, não tenho amigos no mundo. Sou só mais um filho da puta.

Náilon

Capítulo 1

Os seios de Estela. Ela anda e o balanço, ah o balanço. Eu no corredor, copinho de plástico, a torneirinha com os cubinhos desenhados, a água gelando meus dedos, a bolha subindo no garrafão, Estela vindo pelo corredor, de frente, ah, os seios. Estela indo, a bunda, e o balanço. A goladas, esfriando o esôfago. Volto pro escritório, sento na frente do computador. Relatório mensal a caminho.

Capítulo 2

Essa linha piscando, quando o sol bate ela toma as cores do arco-íris. Náilon de violão, dóin, dóin, não sei que nota é.

Capítulo 3

- Aqui. Jucimar pediu para que você catalogasse esses documentos aqui, ok?

- Ok.

- E depois fizesse aquela planilha que ele te pediu.

- Ok.

- Tem café aqui?

Estela abre a garrafa térmica, cheiro de café pelo escritório, enche um copinho. Percebo a curva de sua cintura, os seios meio escondidos pelo blazer, a curva do colo, as sardas, a respiração.

- Quer café?

- Não, não…

- Então eu vou indo. Ah, gostei da gravata.

- Obrigado.

Capítulo 4

Play. O cachorro. Gosto de cachorros, percebo algo de errado com eles só de olhá-los. O batonzinho, a moça, japonesa, em dogstyle. É um dálmata, ele já começa sem dó, a japa faz uma cara de que está tendo a melhor transa da sua vida. O cachorro não. Nunca comeu uma cadela tão feia.

Capítulo 5

- Você fica me olhando.

- Confesso.

- Sabe, aqui é um ambiente de trabalho, não pega bem ficar se curvando para as mulheres.

- Me desculpe, é inevitável.

- É?

- É.

Ana abre um sorriso cativante para mim. Retribuo. Um brilho revolvendo o verde de seus olhos. Observo em volta: por onde anda Estela?

Capítulo 6

As facas mais afiadas são as que nunca cortaram nada. Nem ninguém. O amor só me deixa mais triste. Por quê?

Capítulo 7

- Junta de Pareceres.

- Alô?

- Alô.

- Com quem falo?

- Lucas.

- Lucas, poderia me passar para o Geraldo?

- Claro.

Olho para a mesa do lado, Geraldo pega o fone. Me levanto e saio. Caminho pelo corredor, encontro Bruno, ele carregando uma pasta amarela.

- Lucas, faz um favorzinho, entrega essa pasta na sala 13.

- Claro. E sigo para a sala 13. Da sala 9, sai Ana, loira, gordinha, mas bem feita, passa por mim, um meio sorriso, acompanho seus passos, olho para trás, ela também olha, meio sorriso que vira sorriso, então sigo para a sala 13.

Capítulo 8

- Pega com mais força!

Faço o que ela diz, a carne da coxa interdigitando pelos meus dedos, tiro a mão e lá está a marca na pele branca.

- Vai… Não para…

Gotas de suor grosso pela minha testa, pelo meu peito, o umbigo de Ana se mexendo. Uma geléia. Os peitos não, rocha, mexendo só pela base.

- Olha pra mim, no meu olho.

Atendo. O olho mais verde que sempre.

Capítulo 9

Controlcê, controlvê, “É imprescindível que o autor compareça à autoridade mais próxima para confirmar sua inscrição no programa…” O telefone toca.

- Junta de Pareceres.

- Alô?

- Alô.

- Geraldo, por favor.

Olho para a mesa do lado, Geraldo pega o fone. Me levanto e saio. Caminho pelo corredor, vou até o bebedouro. Copinho de plástico, a torneirinha com os cubinhos desenhados, a água gelando meus dedos, a bolha subindo no garrafão. A goladas, esfriando o esôfago. Ninguém. Volto pro escritório, sento na frente do computador. Levantamento de pareceres de 2008 a caminho.

Capítulo 10

E lá está ela, a ginsu. Só pelo nome. Nunca tinha comprado nada pela internet. Ginsu, cortar o quê? Deixo na caixinha, na estante, ao lado da televisão.

Capítulo 11

- A gente sai de novo hoje?

- Por mim tudo bem.

Ana pega a minha mão, me beija no rosto.

- Aqui não. Ambiente de trabalho.

Da sala 8 sai Estela. Ela vindo, anda e o balanço, ah o balanço.

- O que foi?

- Nada.

- Olhando pra essazinha aí?

- Não, só tenho olhos pra você.

- Seu cachorro!

- Aqui não. Ambiente de trabalho.

- Você me paga.

Tento beijá-la no rosto, ela se desvencilha, segue para sua sala. Vou até o bebedouro. Estela ainda caminha.

Capítulo 12

Demitido foi uma palavra muito forte. Eu não sei bem o motivo, contenção de despesas Vírigina-do-rh me disse. O triste é não mais ver Estela, Ana não quer mais nada comigo, ciumenta demais, nem quando a presenteei com minha ginsu dentro da caixa. Somos amigos, ela disse, aceitando o presente, tudo bem então, e dei um beijo no rosto dela. Geraldo assentiu com a cabeça, tomaremos umas cervejas, risos, eu estava só cansado. Fui pra rua, finalmente, gastar uns centavos. No camelô, comprei um filme. Voltei pra casa e Deus me livre, não mais relatórios, é melhor aproveitar.

Cerveja, putas e cama.

Capítulo 13

Nada como uma boa vagabundagem. Estico a corda contra o sol que entra pela janela, o arco-íris. Bonito, enrolo no meu pescoço. O controle remoto na outra mão. O último filme pornô dos japoneses.

Play.

Eu sou David Carradine.

Uma lida no Matriuska, do Sidney Rocha

Um homem de poucas posses raramente pode se dar ao luxo das compras ao bel prazer. Eu, liso de marca menor, que é mais barato, posso fazer essas coisas luxentas de vez em quando, a cada dez anos, com um peso filha da puta na consciência. E lá estava eu, no (argh) shopping (argh), numa, isso é verdade, (argh) livraria (argh), de bobeira, com uns trocados a mais. Até o Leite Derramado eu folheei, pela bonança dos deuses. E, confesso, senti vontade de comprar, mas esse desejo não resistiu aos volumes do Raymond Chandler que encontrei. A Simples Arte de Matar, volumes 1 e 2. L&PM pocket, caros, porém baratos, vai entender. Comprados, em processo de leitura.

Mas isso não importa.

O que importa na verdade é que, caçando outros livros ao léu, acho aquele livrinho todo cheio de frufrus que há um tempo danado eu queria ler: Matriuska, do Sidney Rocha. Graças a Motaro, 28 facadas reais no bolsinho, pelo menos um preço menor do que as 35 da época do lançamento. Cheguei em casa umas 5 horas da tarde, daria aula às 19:00. Taí o tempo que li o bicho todo. E é sobre ele esta lenga-lenga.

Primeira coisa a dizer: a capa, o design, toda a frescurada. O livro é lindo, puta merda, lindo mesmo. Foda isso. Um livro bonito tira a atenção, pelo menos a desse porco aqui, acostumado com os engordurados Mario Puzo de dois reais do sebo. Evoé. Mas, entre olhadas e outras nas capas, a molona e a dura, com o perdão da sacanagem, li o livro todo.

Segunda coisa a dizer: que porra foi aquilo?

Foram contos, isso eu sei. Mas é tudo tão curto, tão inusitado, que é quase inevitável não suspirar um “que viagem” de quando em vez.

Uma porrada de coisas a dizer:

A subversão do uso de letras maiúsculas, tanta gente usa isso na internet hoje em dia. Está nele. Acho isso um ponto positivo, mas eu me recuso a usar.  Porque sou chato. Mas que é um grande recurso, isto é, mostra a atualidade da escrita do Sidney. Coloca a importância das coisas em seus devidos lugares.

A ligação entre um conto e outro, outro ponto. Acho massa, meu livreto em andamento tem isso.

A sordidez das estórias. Ah, seu monstro, Fillipe “Butcher” Jardim, como não gostar da temática?

É isso aí, um livro, na segurança da palavra, louco. E não há por que não escrever loucamente sobre ele.

Agora os contos em si. O melhor, ou pior, ou sei lá, é que todos seguem a linha Joyceana (mai fresco) de fluxo de pensamento, o que confere dinamismo, mas é um tanto frustrante para um livro de menos de 100 páginas (não conto as pintadas de vermelho nem fodendo). Fica aquele gosto de, “acabou? Que pena…”

E isso é muito Dalton Trevisan, aí chegamos ao ponto.

O sexo, veja o conto Barbie, veja o conto Mastruz, veja o conto Onça. Estupro, aborto, abuso sexual, à Trevisan. As pausas à Trevisan, o ritmo, como narrativas curtíssimas, à Trevisan. Um livro todo trevisado.

As influências de Sidney Rocha, com a certeza de quem erra quase sempre,  estão em Joyce, Trevisan, Fante e outros que não me arrisco em falar.

Fora a garotinha do boquete de Sundown (almoçar a 10 conto?, putz); Camila foda-e-morte de Zero Cal (“olhou um pouco para o vazio de séculos que mora dentro dela”, não esqueço mais isso); a puta-de-história-sofrida e sua bolsa de Matriuska, o conto que batiza o bicho; a curra de Clinch; aquela coisa que passa de marido escroto pra mulher lascada de Feedback; a menopausa de agora de Pause (hehehe); Lucinha gordota leite de rosas pra grudar OB de Carefree; as tragédias familiares de Nuvem; a reza profana de : (isso mesmo, o sinal é o título); a confusão de relacionamento de Déjà Vu; a estória mais engraçada do livro em WWWoman, a mais fofota em Googlemap; a surreal-real estória de um móvel em Egg; e a sanguinolência de Flash. Ufa.

Sei lá, não dá pra explicar muito. Só lendo. É inusitado, original, ótimo. Não me espantarei se vir esse livro ganhando tudo o que é prêmio por aí. Lê-lo é uma experiência única.

Ainda bem que sim, não é todo dia que dou 28 paus num livro.

Estação do sol

O sonho que tive: a escuridão na Rua da Aurora, não mais prostitutas na Rua do Riachuelo, não mais edifícios em Parnamirim. Tubarões e banhistas, juntos, boiando a morte de barriga pra cima em Boa Viagem. E dos bueiros a fumaça verde, a terra se abrindo na Mascarenhas de Morais, de longe as chamas ardendo o Aeroporto dos Guararapes.

Quem sonhou, sonhou. A Rua do Sol à lua cheia, preta de inferno, contraste com o vermelho do céu. E as espadas de fogo dos anjos explodindo nos peitos nus de Recife, essa Gomorra de lama. O sonho que tive: acabaram-se as balas nos tiroteios, os prédios furados de guerra. Não mais os pedintes, derretendo, escorrendo e se espalhando pelo chão podre as mãos que se estendem em miséria. Todas as pedras de crack fumadas ao mesmo tempo.

O bebê sugaria o peito seco e choraria, o lábio em fogo de cada beijo tentado, os dentes caindo em sangue a cada sorriso. Máculas no Morro da Conceição.

O pagode explodindo, o poeta cantando as próprias tripas. O céu nublado de urubus.

Recife à deriva no Atlântico, essa laguna do Beberibe com o Capibaribe. Os rios voltando o seu curso, chupados às terras que os merecem, não Recife, não a sífilis que estoura em cada braço, em cada peito, no céu da boca. Recife, Veneza dos rios secos, gôndolas aos demônios. A escultura de Brennand derretendo: a última vela acesa aos santos da cidade. Freiras correndo de volúpia na Praça do Carmo. Carniça, crânios de mil meninos sonhadores na Dantas Barreto. Os santos de olhos vermelhos no Pátio de São Pedro.

E a praga correria a Agamenon Magalhães, a Conde da Boa Vista, não mais shopping, não mais os bares. Monstros de ferro engolindo o Cais de Santa Rita, arrotando os esqueletos dos punks, dos pichadores, dos assaltantes, dos trabalhadores. Não mais as pontes, não mais a maçonaria, o Lions, o Rotary, não mais a Academia Pernambucana de Letras. Cortiço de fezes o Paço Alfândega, o buraco do inferno na Rua da Moeda. O silêncio dos maracatus, não mais a maconha, o amor dos estrangeiros.

O Ibura, o Jordão, o Cordeiro, a Várzea, Estância, Jardim São Paulo, milhão de vezes as maldições dos subúrbios, a fome, a peste, a guerra. Recife se calando, suspirando a paixão da morte, veio de sofrimento na rocha dura. Em cima o céu se abrindo, todos os olhos do Recife queimados pelo sorriso de Deus. A última estação do sol.

Agonia, a chama preta do Hades, a tocha sulfurosa na Praça do Derby, todos os cachorrinhos estrebuchando no Parque da Jaqueira. Sem dia, sem noite, a chuva de destroços, não mais os edifícios, o ardor das palafitas, a tapera Recife babando raiva, epilepsia, afundando no piche. Os morcegos comeram todos os jambos, o azedume de todas as acerolas. A última visão: lama escorrendo fedor, acima todos os caranguejos e xiés do Recife sem as patas, os olhinhos em torre, piscando dor de crustáceos. Não mais os fantasmas da Praça Chora Menino.

Santo Amaro, Santo Antônio, Espinheiro, Graças, Madalena. O ralo aberto, os bairros roídos pelos seus ratos, que depois de roerem tudo, assim seja a profecia, roerão os próprios rabos de fome. O sonho que tive: Recife não mais cidade, espaço aberto de nada. Olinda do alto da Sé, tremendo de medo, livrai-nos de todo o mal.

Brincadeira

Ali com ele uma garota. Bonita de rosto, tão nova. O mamilo rosado, seio só um inchaço, picada de marimbondo.

- Posso ver o outro?

- Um real.

Ninharia, a moeda mais bonita de todas.

Baixou a blusa do outro lado. O outro inchadinho. Ele desejoso, bolhinhas de espuma nos cantos dos lábios.

- Quero pegar.

- Cinco.

- Não tem.

- Então não deixo, levantando a blusa.

- Tem dois.

- Serve.

As mãos grossas. Aqueles peitinhos. Era como acariciar outros calos. Com os dedos, a pressão leve, “não aperta que dói.”

- Deixa eu correr com a mão, e já fazendo o que pedia.

- Não, não, ela dizendo e permitindo.

Queria beijar, mas ela não deixava, nojo da barba muito grande. “Fede a sebo.” Se quisesse, poderia agarrá-la com seus braços fortes, dominá-la para si, mas pra quê?

- Safadinha.

De repente ela, “chega, ta bom por hoje”, ele querendo mais e mais, puxou-a com força.

- Não!, ela arranhou o peito nu do homem, levantou-se e correu um pouco pra longe.

- Vem cá, meu amor!

- Aqui você não me pega.

- Olha que pego.

- Duvido.

Ele impulsiona o carrinho de rolimã com os dois braços, pra ganhar mais velocidade. Ela um pouco mais pra longe.

- Você não me pega!

- Olha que pego.

Ela correndo, ele arrastando a carcaça. O som das rodinhas trepidando no chão de cimento. A tarde findando. A hora que os ratos saem. E o barulho surdo dos carros vindo lá de cima, o alto do viaduto.

Pequena vingança

Minha irmã ainda morava no mesmo endereço, então não pensei duas vezes e fui pra lá assim que saí da prisão.  Seis anos e as coisas mudam, entrei na favela, desci a ladeira, seu Val do fiteiro acenou com uma vergonha danada, pelo menos ele não fez que nem os outros e fingiu que não me viu. Cheguei na frente da casa dela, bati palma, “Dalvinha!”, era umas duas, três horas da tarde. Ela limpando a mão na saia, “Tonho!”, que abraço.

O marido dela, o Rafael, não gostou, mas porra, expliquei minha situação, quase ninguém nesse mundo quer dar trabalho pra quem acaba de sair da cadeia, ainda mais eu, que caí no 157. Ele aceitou, mas desaceitando, disse que eu era pra ficar só um tempinho. Expliquei que eu só ficava o tempo deu achar um canto só meu, e que isso ia ser rápido.

Fiquei um tempo fazendo uns bicos, ajudante de pedreiro, limpava terreno, essas coisas. E porra, eu não fazia nada pra que ninguém me condenasse, não dava fio pra fofoqueiro puxar.

Lógico que vez ou outra eu tomava umas biritas, mas eu digo ao senhor, sou um bebo comportado, fico na minha, não sou de arrumar encrenca. Chegava em casa, ia pro meu canto – lá eu tava dormindo num colchonete na sala – pronto, eu me cobria, ou pegava o colchonete e ia pro terraço, algum lugar que ninguém ficasse incomodado.

Dia eu nem tinha bebido muito. Rafael ainda não tinha chegado do serviço, ele vendia água, saía de moto cedinho, rodava o bairro todo. Eu tinha tomado uns quartinhos, era sexta, ninguém tinha me chamado pra fazer nada, que o meu sistema é na base do chamou-vamo-nessa, então eu parei no fiteiro do seu Val e tomei duas.

- Ô, Tonho, você já bebeu de novo, disse minha irmã assim que me viu.

- Só um quartinho, Dalvinha.

- Olha, o Rafael reclamou ontem, disse que se você chegasse aqui bebo de novo, te botava de casa pra fora.

Fiquei olhando pro chão, sem saber o que dizer, então eu falei que ia deitar, escovar os dentes pra disfarçar o bafo e etc.

O que Dalvinha não sabia era que o Rafael, rodando de moto, já tinha me visto parado no fiteiro, eu vi que ele me viu, a cara desse tamanho, mas ele também tomava as suas, eu sou lá algum santinho que não posso me divertir? Tirar o estresse?

Mal deitei no colchonete, ouço a moto estacionando, a grade abrindo.

Eu de olho fechado, cochilando já.

- Esse fi de rapariga passa o dia todinho enchendo a cara, Dalva! E trazendo esse safado pra dentro de casa, a senhora!

- Eu vou fazer o quê? Ele trabalha, ajuda nas contas não ajuda?

- Sim, mas olha, eu não vou alimentar bebo não!

- Ele é meu irmão!

E eu ouvindo, o fresco subindo a voz.

- Isso aí é um resto! Um fi de quenga!

- Pois a mãe dele é minha também!

- Você entendeu que eu quis dizer!

O clima engrossando, ele gritando com a coitada da Dalvinha, eu já puto da vida, ponto de encher o cara de tabefe.

Levantei sem dizer palavra, eles brigando, ele gritando, botando o dedo na minha cara, na cara dela, eu agüentando a humilhação, arrumei minhas trouxas e fui-me embora. Minha irmã chorando, pedindo pra que eu ficasse. E eu sou algum abestalhado? Tenho pelo menos vergonha na cara.

Vou confessar uma coisa pro senhor, eu tava sem muito dinheiro, e vá que eu não tenho nem nunca tive muitos amigos nesse mundo, meus conhecidos tavam todos no Aníbal Bruno ou eu não sabia onde eles tavam. Dormi dois dias na rua, sabe o que rua faz com a pessoa, mesmo que seja por pouquinho tempo, não é?

Voltei pro bairro da minha irmã, fiquei assim, perambulando, tentando arrumar algum bico.

Então eu consegui arrumar um barraco, já tinha feito uns contatos com uns amigos que eu não via há muito tempo. Era descendo a ladeira da minha irmã, na parte de baixo, na invasão nova. Eu tava num bar com o Chapinha, um velho amigo, conversando:

- Esses caminhões vêm da Bahia, ele dizendo, tem de tudo: DVD, computador, televisão, celular, tudo pra revender.

- Porra, massa. Dá pra tirar quanto com isso?

- Meu véi, por alto, uns cem mil por carro.

- Porra… To precisando de um.

- Então tu tais a fim?

- Oxe…

De repente eu vejo o puto do Rafael carregando um bujão de água pra dentro do bar. Passa por mim e bota uma cara de raiva. Ele foi e foi embora.

- Oxen, disse o Chapinha, que porra foi isso?

- Relaxa, esse aí é o marido da minha irmã.

E ficava os dias nessa, Rafael passando de moto com a cara desse tamanho toda vez que me via. E eu tenho medo de cara feia?

Até que o puto ficava soltando gracinha, sabe como é, chamando disso, daquilo, provocação, mas ele era marido da minha irmã, eu não ligava, fingia que nem era comigo.

Então um dia eu tava indo pra cidade. Precisei passar na Imbiribeira pra pegar uma bicicleta que eu tinha comprado pelo jornal, quando eu passo por um barzinho. E quem eu encontro? Rafael, numa mesa, todo de chamego com uma mulatona, gordinha. Ah, safado, agora se fodeu na minha, eu pensei.

Se fosse outro, ou se eu tivesse na casa da minha irmã, ou se ele ficasse na dele, sem tirar onda comigo, eu me calava. Mas eu fui na casa da Dalvinha,  e isso fica só entre nós dois, entregar o safado.

Não sou entregão, mas eu já expliquei os motivos.

E o fresco tava lá no dia em que eu fui dizer pra ela.

- Você fica por aí, se agarrando com puta, enquanto tua mulher se arromba trabalhando que só uma condenada em casa!

- Seu puto!

Dalvinha perguntando se era verdade, a gente se gosta muito, ela sabe que não invento mentira pra ela.

Na mesminha hora ela começou a bater nele, ele se protegendo, me chamando de safado. Eu queria era rir, mas me agüentei.

Não é que o miserável ficou todo brabo? Foi na cozinha, buscou a faca de carne da mulher e veio pra cima. Eu só tava esperando por isso, ia dar-lhe um bombão, e ele me furou no braço. Nem pegou em cheio, raspou, rasgou minha camiseta, e na hora eu nem senti, quando eu vi foi só o mel escorrendo. Aí eu parti pra cima.

Coitada da Dalvinha, querendo ficar no meio da gente, mas chorou pra ela. Quase que eu também acerto ela. E foi um quebra pau do carai.

No rolo, segurei a mão dele e consegui tirar a faca.

Os vizinhos entraram, ouviram a gritaria, a coitada da Dalvinha gritando, pedindo socorro.

Me seguraram, seguraram ele.

- Vai embora, Tonho, vai embora, a vizinha falando.

Sei que foi uma confusão da porra. Fiquei encarando o Rafael, ele querendo se soltar pra me pegar, a turma querendo me levar pro hospital.

- Intrigueiro filha da puta! Eu vou matar você, seu safado!, ele gritando.

Me deixei levar por quem queria me socorrer. Fui pro Pan de Areias, tratar do braço. Jurado de morte eu já fui um monte de vezes. Eu, aos pouquinhos, to refazendo minha vida. O senhor acha que eu vou ter medo de um otário que nem o Rafael?

Toalhas Vermelhas – Alexandre Campinas

Ontem, sexta-feira, cheguei em casa bêbado. E neste estado, abro a caixa de correio e vejo lá dentro um envelopinho cor de terra. Investigo, lá meu nome gmailco “Fillipe Vilar Jardim”. No remetente está o nome do camarada, Alexandre Campinas. Senti o volume do envelope. Um livro, com certeza. Bêbado quando ganha presente: subi as escadas sorrindo. E o sorriso não me deixou.

Sinal para o que me esperava? De fato, li o prefácio do Kinho Vaz, li os versos da contracapa. Ah, e a dedicatória, muito honrado este desgraçado aqui ficou. Amanhã eu teria uma boa leitura, pelo menos parecia. O título era interessante: Toalhas Vermelhas.

Acordei renovado, muita água, daria aula à tarde. Antes do almoço, os primeiros contos: “Estes Maravilhosos Porcos Imperialistas Ou De como Jean-Marie Recuperou a Honra” e “Estrela Cadente”. Nas primeiras linhas, volta-me o sorriso. O primeiro é recheado de ironia, a pergunta do “e se realmente fosse assim?” respondida com um humor que, para mim, já supunha inevitável pelo que cyber-conheço do camarada Campinas. O final é engraçadíssimo. O segundo é o retrato de um cara que realmente se ferra na vida por causa de uns negócios filhos da puta. Já conhecia este da internet. O trecho de My Way no fim cai como uma luva.

Almoço, saio. No ônibus, mais alguns contos: “Impressões De Sexta-Feira”, fantasmagoricamente engraçado e surpreendente; e o meu preferido, “Lógica. Fantasia Sobre Velha Piada. Feliz Ano Novo Pra Você Também, Rubem Fonseca”, ironia com os vermelhinhos febris dos anos 70 e o seu futuro, com as ilusões perdidas dos ângulos de duas gerações; Depois, “A Esfinge de Cydônia”, uma estorinha muito singela sobre uma puta chamada Copa e “Fantasia das Podridões Humanas”, um homem e a situação de ser observado em suas intimidades por um tarado peixe japonês. Minha parada, desço do ônibus.

Chego na casa do garoto. Doente, não assistiria aula hoje. Viagens perdidas me deixam puto.

Dirijo-me à parada. Um mendigo e uma coroa muito simpática – falo de dotes físicos também. Ela puxa conversa (medo do pobre mendigo), “ainda bem que você chegou”, “eu?”, respondo e sorrio. Papeamos um tempo. Íamos para lados diferentes da cidade, uma pena.

Dou aulas no bairro do Rosarinho, nobilíssimo. Não conheço quase nada daquelas bandas. Resolvo ir à Universidade, onde amigos estão dando uma festinha para a qual eu tinha sido convidado, mas não podia comparecer por causa da aula. Agora eu podia. O ônibus que pego faz um arrodeio desgraçado. Tempo para ler mais contos.

Dessa vez o que dá nome ao livro: “Toalhas Vermelhas”, uma estória muito interessante sobre adolescência, com um final hilariante. Depois “Tarde Demais Para Mim”, outro conto de humor cortante, literalmente. Olho um pouco a paisagem. Penso “ainda em Casa Forte, puta que pariu”, volto à leitura.  “Um Sapo-Banana Para Mário”, uma estória de pescador e “O Pardo e o Parvo”, sobre as lembranças de um executivo voraz que veio de muito baixo. Chego ao meu destino. Ainda o sorriso nos lábios.

Uma tarde agradável com amigos que eu não via há muito tempo. Ri bastante.

Voltei pra casa com alguns colegas, conversando no ônibus.

Tomei um banho, contei como tinha sido o meu dia para os meus pais, manter a rotina. O último conto: “Sr. Obnóxio, o Livro”, este realmente excelente, um conto de fantasia com aquele bom humor que esteve presente durante toda a leitura. Na última página, alguns versos de Ferreira Gullar.

Fechei o livro. O meu dia não foi lá essas coisas, mas eu senti isso? Foi como se tivesse sentado num bar e tomado umas cervejas com o camarada Campinas contando todas essas estórias. Satisfeito, guardo o livro junto de meus outros volumes, na cabeceira da cama. Qualquer emergência ele estará lá, para uma nova leitura.

O terrível

Beliscão na perna, a marca vermelhinha, mordida no seio, chupão deixando mancha.  Estapeava, pedia que ela gritasse. Ele, o terrível. Bufando, suando, raspando o bigode no corpo dela. Ai, arranha, ela diz, ele não aguentava, aquele gemido sim que arranhava macio o ouvido, que nem unha de mulher fazendo carinho.

Gosto seco na boca, a luz amarela do quarto. Ambos de olhos fechados. Ele sentindo o prazer se espalhando pelas pernas, pela espinha. Terminou, esmagando a pequena moça com sua redonda barriga.

- De lamber os beiços, você.

- Também você, paixão, ela diz.

- Preciso de um banho.

Ele no chuveiro, ela esperando, bochechando água com pasta de dente. Manter sempre o beijo fresco.

Ele veste a farda, “SD CAVALCANTI”, ela lê.

Estalinho na porta, deixa as duas notas enroladas no criado-mudo.

- Depois eu volto, Manuela.

Ela sorri, complacente. Agora sim tomaria um banho. Aquele bigode nojento.

A missão

O vento gelando os ossos de toda Porto Alegre. Na Praça da Matriz, velhinhos jogando grãos aos pombos embaixo do monumento a Júlio de Castilhos. Dois homens sentados ao pé da estátua, conversando:

- E quanto pesa um pombo?

- Um tira-gosto, mais ou menos.

- O peso de um telefone ele aguenta, tchê?

- Se aguenta! Dia todo comendo milho que velho dá, tem vitamina pra cacete no milho.

- Nada a ver.

- Rapaz, ele come tatuzinho de jardim, minhoca, milho. É um bicho forte. Já viu a quantidade de merda?

- Nada a ver.

- Olha, porra, to aqui explicando a real pra ti. Não vai embaçar!

- Não to embaçando, só pensando, tchê.

- Então não pensa! O Zeronove disse: ou dá ou desce!

- Ok. É o nosso pescoço em jogo, então?

- Ô se…

- Bah, desgraça… Ouvi dizer que já fizeram isso uma vez.

- Eu também.

- Cada uma que o Zeronove manda pra gente…

- Ele é inteligente, rapaz. Daqui de fora como a gente ia fazer senão desse jeito?

- Verdade. Na perseguida das velhas manjado demais.

- Pois é…

Ambos esfregam as mãos. Olham-se, companheiros. Uma missão muito simples a cumprir. Hora da captura.

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Texto inspirado por: http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL1341235-5598,00.html