A todos os maus policiais

Publicado: janeiro 27, 2012 em Poeminhas

Sou um soldado
o Braço Armado do Estado
Sou um soldado
Quanto menos sei, mais condecorado
Sou um soldado
Armado, cego, despreparado
Sou um soldado
Não questiono, pau mandado
Sou um soldado
Cego, surdo e sanguinário
Sou um soldado
Maniqueísta robotizado
Sou um soldado
Sou leal, bravo, sou gado
Sou um soldado
Marionete do poder, alienado
Sou um soldado
O Braço Armado do Estado
Não questiono o certo/errado
Sou apenas
Um soldado

Post de natal

Publicado: dezembro 23, 2011 em Papo furado

Não sei se todos os leitores sabem, mas sou ateu. Contudo, não consigo negar a força poética destes versos:

Ave Maria

Gratia plena

Dominus tecum

Benedicta tu

In mulieribus

Et benedictus

Fructus Ventris tui, Jesu

Sancta Maria,

Mater Dei,

Ora pro nobis peccatoribus

Nunc et in hora mortis nostrae

Amen

Você que é cristão, mesmo não sendo católico, pense nestes versos quando estiver com sua família celebrando o natal.

Não que tenha um valor mais que poético para mim, mas tudo onde há beleza é bom de se ver e refletir.

eu

Publicado: novembro 15, 2011 em Papo furado, Poeminhas
chegou o dia, enfim,
em que o terror não mais me encheria os olhos
e o sangue nada mais seria que um liquido com cheiro acre
que cinquenta por cento mais um de mim seria bucolismo
e que eu olharia para trás e me colocaria um monte de defeitos
gritantes.

adeus, nem mesmo essa palavra me inspira nada,
nem mesmo aquelas outras como amor, solidão e vingança,
está tão difícil pra mim odiar quanto sempre foi amar.

mas pra se amar tem que se passar pelo gostar
e esse caminho eu cortei

então é isso, afinal.
o álcool e os cigarros, seja de que espécie sejam,
não significam mais nada. a música é só um amontoado
de ruídos. estou me afundando num cretinismo southparkiano.

chegou o dia em que escrever 'sussuros' num poema não significa
nada mais que um vocábulo. encabular-se não é mais via de regra
diante dos fatos. mentir compulsivamente não é mais automático.

chegou o dia
peço perdão a deus e a quem ofendi com minhas atitudes.
começa a embaçar-me a vista e enrolar-me a lingua.
não posso mais declamar o que não tenho.

minha mente se fechou para a beleza
meu cérebro não mais é surpreendido.

tudo se tornou clichê e um pouco triste.

não uma tristeza doída, obviamente.

enfim, amigo, observei-lhe a face.
estava aí o tempo todo, rindo amarelo,
não é amor nem sentimento, mas vamos dar as mãos.
quem sabe assim você, tédio, possa me mostrar um mundo novo.

obviedades

Publicado: outubro 27, 2011 em Papo furado, Poeminhas

Está na moda ser idiota
tá na moda falar de amor
e pagar de gostoso
está na moda ser cretino
dizer que não está nem aí
tá na moda falar errado
marrom
bado
na moda tá ser mal falado
fazer samba e ser vi
ter medo de ser feliz
ou ser feliz demais por medo
tá na moda contradizer
e ser
saber pra quê?
se tudo é relativo
tá na moda ser cativo
da preguiça
ter justiça presa entre os dentes
que nem fiapo de manga
voci fe rar
no tribunal
nos termos da lei
tá na moda 10%
na moda 20%
indecoro parlamentar
tá na moda ser voz
vazia
tá na moda letra de música
travesti de poesia
tá na moda ter um fraco
ser palhaço
arrogante
intelecdiletante
tá moda se fechar
num casulo
e virar uma borboleta do avesso
cheia de lugares comuns
politicamente incorretos

e hoje em dia
s’il vous plaît
qualquer merda é poe

Tapa-olho

Publicado: setembro 14, 2011 em Contos

Saí da taverna com os pés escorregando no vinho. Dez marujos vinham de punhal em mãos, aos meus calcanhares. Transformei-me em nuvem depois em gato então eles estremeceram diante do meu sorriso. Não podia fazer nada contra eles, bem visto, porém este tipo de coisa sempre mantinha distantes os perseguidores.

Minha mãe era uma bruxa e meu pai, dizia ela, belzebu. Não tenho cara de hebreu, mas mamãe era negra, azul e cinza, nas partes corretas. Lembro de suas íris e seu olhar de gata cega enquanto me amamentava.

Mas isso é de um tempo triste e distante, em outras terras. Agora, sangro. Lá, entre os dez, tem um com meu olho esquerdo espetado na lâmina sangrenta. Dor não sinto, não é isso. É ser ferido. Eu. Logo eu.

Não tenho Holandês Voador nem Triângulo das Bermudas, mas a cor da minha barba é conhecida em todos os mares.

Caminho ainda etéreo para minha nau, uso a órbita vazia como bainha pra minha adaga de rubis. No convés acendo meu cachimbo e plano com o espírito de todas as gaivotas mortas seguindo o cheiro das cascas de ovos rompidas pelos atobás.

dia zepam meu ben flogim

Publicado: junho 7, 2011 em Papo furado, Poeminhas

pequeno amor
que guardo
brigitte bardot
prometo não falar de morte
prometo apenas
eu prometo

veja minha linda
brigitte bardot
só minha
possessivamente
bardot

o meu coração obsceno
chorar por teu sorriso
a ti que nunca ouviu falar
de ti

brigitte bardot
minha só minha
violentafrescalhadamente
meu pequeno amor

desconfie
quando te negar
qualquer coisa
é mentira

posso te oferecer o que quiser
pois dar não é possível
nesse mundo

minha bardot bardot
pequeno amor
que nunca ouviu falar de ti

os teus cabelos pretos
olhos castanhos
que nunca viram

aquele filme do Roger Vadim
em que você aparecia
e onde me apaixonei por você
pela primeira vez

bardot bri
gi tte pequeno amor
porsuavozvontade

corto os pulsos
e sangro
entenda

sou drástico confuso insano
te amo

Rola a maior inversão de valores desses beats nacionais
ouvindo blues e queimando erva
achando dos anos 30 até 1989 o supra sumo do século XX
aliás até mais tarde
até a morte do bukowski, digamos.
esses beats nacionais querem odiar demais
beber uísque demais
e ser boçais demais
esses beats nacionais querem morar em são paulo
eles têm são paulo dentro do coração
nada contra são paulo diga-se de passagem
esses beats nacionais infestam tudo onde observo
que eu leio, até o que escrevo
argh!
há uma parede cheia de beats nacionais no meu quarto
e meu inseticida só funciona porcamente com as baratas
cadê meu pau, skylab!
eu quero uma metralhadora, estilo maio de 68
AQUI E AGORA
vamos tomar cachaça nos cabarés
recife é san martin e ibura de baixo
marco zero é o meu ovo
morte ao CAC e afins da UFAM à UFRGS
morte aos playbas cheirando a sarjeta errada
e morte estrebuchante ao rolo contínuo do kerouac
esses beats nacionais têm de aprender a amar de novo
amar com o seio e os testículos
os beats nacionais estão achando que sertão é los angeles
que deserto é semi-árido
que rap é funk carioca
que vinil é mp3
morte aos remanescentes beats do cenário nacional
uma placa colorida com o símbolo da paz pintado com sangue e merda
cada um no seu espaço: nos cemitérios
newton carneiro deu a solução para quando a metralhadora chegar
mais e mais cemitérios construídos de recife a jaboatão
derrubando-se favelas inteiras para que ocupem seu lugar
os beats nacionais estão presos numa cueca fedorenta do ginsberg
vamos queimá-los com um reggae dos karetas
o último poeta brasileiro é o Mao
que diz ainda que o mundo não para de girar
e vomitar no trem é a solução
choque elétrico na uretra dos beats nacionais
morte bíblica com coçadinha de caco de telha nas chagas deles
vamos jogá-los pela janela do metrô
ou esmagá-los numa máquina de charles chaplin
moenda de cana com barbeiro na hora do lanche dos beats nacionais
o coração inchado de incertezas e wannabes L.A. The Doors e Harrison
com o cu do demônio mais vermelho do inferno!
Waldick Soriano, ó mestre
mostre a essas estrelas das cafeterias
o que é sofrer de verdade
ser pobre e analfabeto
ter tudo e perder tudo
dançar colado na mulher mais linda do puteiro
e sofrer nos decotes da Mãe-Pátria
preciso ver tv
preciso ver o ratinho
onde está o alborghetti?
pílulas de sabedoria de joslei cardinot
o charme pedófilo de denny oliveira
a rádio recife e as traduções simultâneas
vocês beats nacionais sabem o que é isso
então olhem pro próprio umbigo
ou pro dente cinzento do primeiro mendigo que virem
e vão sonhar de novo, pra dentro, porra!

cadê você

Publicado: maio 31, 2011 em Papo furado, Poeminhas
Tão bom seria
menos uns 4 bilhões de pessoas no mundo
mais vagas de emprego
menos gente apinhando as ruas
menos poluição
mais campos verdejantes e florestas idem
mais espaço pras criancinhas brincarem
menos engarrafamentos
e corações amargurados
menos gente cada vez menos gente
sem tanta gente na china
sem tanta gente na índia
menos gente acreditando em deus
e rezando
menos ateus
menos poetas nesse mundo
que maravilha
menos livros pra se ler
menos avanços científicos
e menos tempo na internet
sem tanta gente pra se conhecer
o mundo com 2 bilhões
espalhados nesse mundo
dispersos bem dispersos
seria tudo tão lindo
tão maravilhoso
que até me dispunha a ir junto
com os os outros 4 bilhões pro limbo
só pra saber que isso
o mundo ideal
aquela tal paz mundial
acontecendo de uma vez
aposto que jesus voltava
de mãos dadas com o profeta
(allahu akbar)
e buda iluminando o caminho
com seu autoconhecimento
que bom seria
que bom seria meu deus
senhor cadê senhor
a bomba de neutrons quando se precisa?

rascunho

Publicado: maio 29, 2011 em Papo furado, Poeminhas
Um dia verei brilhar o sol
enquanto me sonham as pupilas
numa viagem de ácido
milnovecentosesessentística
com gosto de mel de abelhas
apocalypse now e os mutantes
buracos de verme e orgulho negro
o brasil ainda comemorando
o méson pi de cesar lattes
e os ultimos gols de pelé
eu de camisa colorida
e calças jeans gastas
vasculhando a bosta de uma vaca
atrás do barato mais barato
deixando fita k7 em banho maria
desde que seja do the doors
boiando na pia e dentro dela
a via láctea e todas as estrelas
da era de aquário e o inferno
do novo papa

mas

estou aqui em outra onda
noutro tempo noutra vi-bra-ção
só

Decepção

Publicado: maio 27, 2011 em Contos, Papo furado, Poeminhas
o homem que vou matar
senta do meu lado no ônibus
eu estava no fundo
e percebi: ele era estranho
o homem que eu vou matar
se aproximava demais
meu canivete
na mochila
abri-o
e o segurei dentro da bolsa
enquanto lia on the road
e carlo marx esperava
dean e sal paradise
em nova york
enquanto eu espreitava
no canto do olho
qualquer movimento
do homem que vou matar
uma única desculpa
pra cortar sua glote
vê-lo gorgolejar seu sangue
espirrar no meu livro
deixar minhas roupas e o chão
avermelhados
e eu saboreando aquelas duas palavras mágicas:
legítima defesa
legítima defesa
legítima defesa
overkill? desespero
eu seria assaltado
arma branca? preciso pra minhas aulas
riscar rochas e etc
desculpa perfeita
mas o homem que vou matar
não se mexe mais que alguns centímetros
para lá e para cá
ódio mortal
do homem que vou matar
seguro o cabo da faca
e espero
qualquer movimento brusco
tiro a mão de dentro da mochila
num relâmpago
e menos um pescoço inteiro no mundo
mas o homem que vou matar se levanta
calmamente
pede parada
vai embora
e mais uma vez
as circunstâncias
vencem minha sede de sangue
merda